Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de junho, 2017

Fome de prazer

   A fome de prazer sensorial nubla um prazer muito mais elevado. A premência da ação e sede de reações, que serve de fonte de inspiração cotidiano ao pequeno ser que se debate no mundo material, impede-o de entrar naquela beatitude que procura. Os objetos dos sentidos, ou melhor, tudo que é diretamente intuído  da realidade concreta, aciona um processo mental de identificação que gera emoções . Podem ser emoções sutis, imperceptíveis, tanto quanto fortes. O pensamento intelectual, assim como qualquer pensamento, é na sua formação um encadeamento de emoções ligadas a estruturas de memória. O som, a visão, as sensações de toque, paladar e todas as outras evocam constantemente processos mentais; isto é impossível de evitar. Por trás de todo esse movimento cerebral há um centro natural, mais antigo, aperceptivo, que concentra a observação sobre o próprio movimento de seu sistema nervoso. Este centro acumula, interpreta, divaga e é reconhecido por si mesmo como sendo o "eu"...

É proibido pensar

É proibido pensar. Talvez seja essa a maior violência passível de um indivíduo sofrer. A proibição do uso de sua própria razão é alcançada por meios diversos e sempre com o finalidade de estabelecer poder sobre os homens. Pensar por conta própria é um perigo à coletividade. O pensamento então é modularizado, precisa sê-lo senão o imaginário que sustêm a organização vem abaixo. A modulação ocorre em dois níveis, o primeiro desvia a atenção e o segundo anula a vontade de pensar. É claro que o pensamento nasce de uma vontade pessoal, intrínseca ao ser humano. Essa vontade precisa ser forte o suficiente para romper a inércia do não pensamento. Neste caso me refiro ao pensamento fragmentário, onde a linha de raciocínio é curta e a memória pouco requisitada. Digo não pensamento àquele tipo de pensar abrupto e intercalado, que não segue uma cadeia lógica necessária para concentrá-lo e torná-lo mais concreto naquilo que Kant designa por "apercepção". A "apercepção" para aqu...

Anulação do ego

   O ego tenta subsistir a todo custo, iludindo-se e buscando constantemente sua sobrevida. A esperança sempre ressurge; nublando a realidade, dando-lhe nova coloração. Não dura muito e as cores brilhantes da esperança se esmaecem, retornando à fria realidade - aos olhos do ego - seu tom neutro.    Algumas vezes o ego sai vencedor na sua esperançosa corrida. Aqui uma sorte, ali a habilidade necessária e adiante várias circunstâncias favoráveis sobrepujam momentaneamente o infortúnio da esperança não realizada, e a recompensa é alcançada. Dependendo da sequência de ensejos dirimidos, que o ego toma como se fosse resultado de sua ação, ele cresce. Assim inflado habilita-se a fomentar mais esperanças. Mais dia menos dia a sorte acaba. A realidade se impõe novamente, com todo seu peso. O ego reage desesperado, implanta nova esperança. Assim o ciclo se repete.    A maior esperança, a mais cara e protegida, é a esperança de que a vida do corpo está sob o contr...