A fome de prazer sensorial nubla um prazer muito mais elevado. A premência da ação e sede de reações, que serve de fonte de inspiração cotidiano ao pequeno ser que se debate no mundo material, impede-o de entrar naquela beatitude que procura. Os objetos dos sentidos, ou melhor, tudo que é diretamente intuído da realidade concreta, aciona um processo mental de identificação que gera emoções. Podem ser emoções sutis, imperceptíveis, tanto quanto fortes. O pensamento intelectual, assim como qualquer pensamento, é na sua formação um encadeamento de emoções ligadas a estruturas de memória. O som, a visão, as sensações de toque, paladar e todas as outras evocam constantemente processos mentais; isto é impossível de evitar. Por trás de todo esse movimento cerebral há um centro natural, mais antigo, aperceptivo, que concentra a observação sobre o próprio movimento de seu sistema nervoso. Este centro acumula, interpreta, divaga e é reconhecido por si mesmo como sendo o "eu". Esse "eu" reconhece sua importância, e de fato a possui, de ser a entidade abstrata que permite a coesão do raciocínio mental, sem o qual sobreviria um estado de loucura. O animal não-humano possui também um centro de coesão mental, mas sua complexidade inferior não o permite observar seus próprios processos mentais. O "eu" além de suas tarefas de manter a integridade do corpo também precisa manter sua integridade psicológica. Esse arranjo neuro-morfológico precisa manter sua continuidade porque a continuidade de sua existência é que garante a sanidade da mente e do corpo. Por isso o "eu" sente necessidade de se reafirmar continuamente. O "eu" existo na forma "eu sou" é uma reafirmação célebre. Esse centro aperceptivo, sendo nada mais que um arranjo neural, pode se dispersar caso uma força centrípeta não for imposta continuamente. Para se reafirmar o "eu" se apega a objetos dos sentidos, pois são estes que possuem realidade duradoura e não o evanescente e fluído centro aperceptivo. O contato material dá substância ao "eu", que não a tem por si mesmo. Então o ter, possuir, manipular e ser dono dos objetos se torna um imperativo da existência do "eu". No entanto esse "eu" não existe de fato, é apenas um arranjo mental. Os objetos sensórios tornam-se a meta de personificação do "eu". E com os objetos toda uma gama de fantasias e mirabolantes conjecturas sobre a importância do "eu" no mundo físico. A história dos "eus" é contada em fábulas e mitos como exemplos de existência. Até mesmo supõe-no uma existência além da morte física, e toda sorte de reafirmações do "eu". No entanto estas abordagens de reafirmação do "eu", como ente físico real, falham fragorosamente em tornar real aquilo que é apenas fruto da imaginação. O "eu" que conhecemos é de fato apenas um processo mental.
Essa fome de existência pode ser saciada? A vontade como potência e representação da realidade não pode ser destruída, quanto menos o "eu", que nasce também dessa vontade. Morre o homem e a vontade de seu "eu" particular, que é uma vontade indireta da natureza, mas ela mesma, a vontade, não morre. Todas os seres vivos do mundo tem vontade. Então essa fome de existência não pode ser aniquilada? Não, não pode. Nem mesmo o suicídio a extinguiria, visto que outros da mesma espécie continuariam a carregá-la. Sem a vontade na representação nem mesmo a visão particular do mundo seria possível, pois a representação que damos do mundo depende da nossa vontade do que seja o mundo. Não somente nós, os "eus", como também a vontade que antecede o "eu", reafirmam uma representação adequada do mundo que caiba dentro de nossa compreensão, dos "eus". Sem sentido seria um mundo que não nos representasse na forma de um "eu" existente e real. Ou seja, é a vontade da natureza que incumbe ao arranjo mental "eu" em criar uma representação da realidade que o adote como existente. A realidade, ela mesma, seja o que for, não cria a si mesma senão de acordo com a representação que ela tem perante o "eu", que por sua vez não é real, apesar de ser resultado da vontade da natureza.
O sofrimento emocional, que é afetação da passagem do pensamento, não diminui quaisquer que sejam as visões de mundo. Adorar um Deus, tentar anular o pensamento ou não pensar em nada disso, dá tudo no mesmo. O sofrimento emocional continuará, pois ele faz parte da corrente neurológica que concentrar-se-á na apercepção, quer você queira ou não. A representação da realidade precisa do sofrimento emocional para existir, é de fato seu motor imóvel. O "eu" não conseguirá existir de fato, e por isso estará sempre em perpétua fome de prazer, fome de existir. Essa fome nada mais é do que a emoção que trespassa os filamentos neurais na sua complexa comunicação intermitente. Não existe uma fórmula de anular o sofrimento, no máximo um meio de contê-lo para que não se transforme em exasperação. Toda violência gratuita é uma reação a essa falta de capacidade de conter as emoções. E o resultado da violência, óbvio, é a multiplicação do sofrimento.
A consciência da substância do "eu" permite assistir o movimento da emoção sem fazer parte dela. O cérebro funciona em paralelo e assincronamente, parte sente, outra parte observa o que sente, outra busca, e assim por diante. A fragmentação do pensamento e sua complexidade é regida por uma ordem interna que se desenvolve no tempo. É falsa a ideia de um tipo de organização mental passe imediatamente para outro tipo de organização de repente - de um só golpe. Não há nada material que abruptamente passe de um estado complexo ordenado para outro estado complexo ordenado de forma imediata. Existe uma transformação, e ela reside no tempo. O cérebro é um arranjo de neurônios estimulados dessa ou daquela forma. A estrutura cerebral é fixa mas o arranjo físico-químico é fluídico. As emoções ocorrem na transição de um estado para outro, de uma configuração a outra. Essa transição é a própria emoção, que em última instância emite também o efeito do pensamento. Pensamento e emoção andam juntos. A reconfiguração de modo a neutralizar a força da emoção, diluindo-a em pensamentos simples é custosa, e possivelmente não se fará sem a compreensão de todo esse processo. A dissipação das emoções exige auto-observação. Quando uma emoção forte ocorre, se no mesmo momento sobrevêm um pensamento que observa esta emoção, isto implica na divisão da força que antes estava concentrada na emoção e agora se divide em duas, uma que se emociona e outra que observa a emoção. Desta forma a emoção perde força e pode ser devidamente contida na sua essência, sem implicar em sobrecarga do sistema e causar uma ação inconveniente. Resumindo, a observações de suas próprias emoções diminui a influência das emoções. O estado geral da mente irá se distribuir melhor e uma espécie de neutralidade tomará corpo. Isto pode ser chamado de meditação.
GLOSSÁRIO
beatitude
substantivo feminino
- 1.fil estado permanente de perfeita satisfação e plenitude somente alcançado pelo sábio [A felicidade beatífica foi buscada e refletida por uma longa tradição filosófica que remonta a Aristóteles (384-322 a.C.), e que terminou por condicionar o significado religioso da palavra.].
- 2.
teol rel felicidade profunda de quem desfruta a presença de Deus, e que só poderá ser atingida em sua plenitude na vida eterna.
intuição
substantivo feminino
- 1.
faculdade ou ato de perceber, discernir ou pressentir coisas, independentemente de raciocínio ou de análise.
"sua i. lhe dizia que era melhor partir" - 2.fil forma de conhecimento direta, clara e imediata, capaz de investigar objetos pertencentes ao âmbito intelectual, a uma dimensão metafísica ou à realidade concreta.
emoção
substantivo feminino
- 1.
ato de deslocar, movimentar. - 2.agitação de sentimentos; abalo afetivo ou moral; turbação, comoção.
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