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É proibido pensar

É proibido pensar. Talvez seja essa a maior violência passível de um indivíduo sofrer. A proibição do uso de sua própria razão é alcançada por meios diversos e sempre com o finalidade de estabelecer poder sobre os homens. Pensar por conta própria é um perigo à coletividade. O pensamento então é modularizado, precisa sê-lo senão o imaginário que sustêm a organização vem abaixo. A modulação ocorre em dois níveis, o primeiro desvia a atenção e o segundo anula a vontade de pensar. É claro que o pensamento nasce de uma vontade pessoal, intrínseca ao ser humano. Essa vontade precisa ser forte o suficiente para romper a inércia do não pensamento. Neste caso me refiro ao pensamento fragmentário, onde a linha de raciocínio é curta e a memória pouco requisitada. Digo não pensamento àquele tipo de pensar abrupto e intercalado, que não segue uma cadeia lógica necessária para concentrá-lo e torná-lo mais concreto naquilo que Kant designa por "apercepção". A "apercepção" para aqueles que não sabem, de forma simplificada, é o núcleo da mente pessoal, aquilo que percebe mas não é percebido. Essa concentração mental dá força à permanência de uma linha de pensamento, e é a este pensamento que chamo de pensamento. O não pensamento é uma forma de viver desconexo com o maior tesouro que o ser humano possui, sua capacidade de raciocinar, e mais ainda, em consequência, de sua capacidade de ser livre interiormente. O indivíduo só pode ser chamado de livre, nestes termos, se possui a capacidade de raciocinar livremente. As instituições, por sua vez, que são coletivos dirigidos por um conjunto de regras, que no fim deságuam no poder de poucos homens, não sobrevivem se cada um de seus membros pensar de forma livre. A instituição pode ser religiosa, política, empresarial, ideológica, qualquer que seja impõe como regra de ouro "não pense", siga. Como ia dizendo, a anulação da vontade de pensar processa-se pelo estafamento. Quando o ser humano é obrigado a seguir várias normas, regras e dogmas, o tempo todo, sua mente procura o descanso atendo-se somente a pensamentos de curta duração, imediatos e de preferência sem sentido. Isso alivia toda a tensão causada pelo coletivo social, que lhe cobra essa gama toda de observância de suas normas. No fim isso anula a vontade de pensar. O mais fácil, talvez a única forma de escapar da vergonha de ser diferente e sofrer por isso, é simplesmente agir sem pensar, seguir vagando num estado semi-automático. Não pensar é o estado do escravo perfeito. A outra forma de dominar o pensamento do indivíduos coletivizados é desviar constantemente sua atenção para pensamentos pobres. Digo, toda aquela conversa sobre o destino do mundo, do país, o andamento da política, ou as distrações puras travestidas de esporte - o que você vê não é esporte, esporte é o que você pratica - todas essas distrações e milhares de milhões de outras que apetecem os sentidos e enfraquecem o raciocínio, por fim, destroem a capacidade de pensar. O não pensar é uma ilusão de felicidade. Parte daquele poder na mão de poucos emana dessa falsa felicidade. Essa aparência de felicidade de fotos, esse mostrar-se, de ser para os outros. Isso não é felicidade genuína. Uma real felicidade seria antes tão profunda, pois o homem como tal possui essa profundidade, que impossibilitaria sua mostra. A felicidade real é imostrável. Tudo isso faz parte do jogo da escravidão. E todas estas instituições aplicam a distração e o esforço como método em minar a capacidade de pensar dos seus escravos. O que seria então pensar livremente? Ou simplesmente pensar? A linguagem, por certo, foi a maior invenção do ser humano. A expressão do pensamento, mesmo que de forma resumida - pois o pensar pode ser muito mais complexo do que a possibilidade de sua codificação numa linguagem - é uma ferramenta de transmissão e motivação inigualável do pensar. O pensar pode então ser transmitido e dessa forma sobreviver noutra pessoa. A linguagem escrita vence a limitação temporal e a linguagem falada a limitação espacial. A linguagem portanto deveria ser tratada com a maior sacralidade possível por toda entidade que se dissesse protetora dos seus integrantes. Não é isso que ocorre. Além de ser o meio de transmissão do pensamento, a linguagem também é o meio prático de exercer o raciocínio. Pensar livremente então é o mesmo que usar livremente a linguagem. Mas quando o pensamento é tolhido pelo desvio de atenção e anulação de sua vontade, a tendência é que a linguagem acompanhe, sendo então usada para fins fúteis e repetitivos. A linguagem torna-se presa igual o escravo que a usa, em círculos viciosos de jargões e repetições infindáveis, devido ao cansaço e falta de atenção. A onda de escravos que repetem, repetem e repetem. O raciocínio leva a juízos sintéticos criativos e consegue então livrar o próprio pensamento de suas amarras. Já a falta de raciocínio leva a juízos analíticos viciosos que partem e voltam a si mesmos sem sair do lugar. Os ciclos viciosos transformam-se com o tempo e sua conjuração repetida em proto-dogmas que inflamam os centros nervosos cerebrais, causando-lhe dores e retornando pensamentos autoritários, de urgência, de emergência, de violência. Já não importa que seja verdade ou mentira, uma inflamação no pensamento precisa ser rompida, seja aos gritos, em rompantes de fúria, desespero ou seja lá o que for. Esse é um não pensamento. Ou melhor, um pensamento inflamado, doutrinário, rígido, dogmático, autoritário, violento. O raciocínio deixa de existir dando lugar a analogias simplórias. As cadeias do pensamento já não estão mais assentadas em ponderações lúcidas e lógicas de cada um de seus elos, e sim de embotamento, ferrugem e entupimentos. Esse é o não pensar do escravo. O linguajar revoltado é uma de suas características. Não é à toa que o domínio político se faz pela revolta ao estado de coisas. Usa-se uma multidão de escravos mentais revoltosos para manter o estado atual de poder nos seus ditames contra o raciocínio lógico. Um faz de conta interminável para esconder o verdadeiro inimigo das instituições, o pensamento livre. Nem sempre é assim. O meio da revolta é apenas um dos não pensamentos. O controle pode ser perene também. Distrair e anular o pensamento pode ser um meio de amansamento dos cordeiros do senhor. Dessa feita os seres não pensantes imaginam-se rumo ao paraíso. E cabisbaixos vão aguentando toda sorte estapafúrdia de ensinamentos que no fundo jazem o pensamento no mesmo buraco de distrações e anulações do pensamento. Entretanto, a fórmula matadora de pensamentos é a mais vil. É dantesca a atuação daquelas instituições que se dizem fomentadoras do pensamento, com o título de educadoras. Destruir o pensamento enquanto se diz que está construindo-o é o cúmulo da subtileza mórbida de se manter poderes sobre os homens. Na placa emérita destas instituições ditas de ensino, que na verdade amputam a vontade de pensar, desde a tenra idade, está uma ordem peremptória: É PROIBIDO PENSAR.

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