A mais terrível e antinatural das ideias é a atribuição de valor às pessoas. Os bens e serviços possuem um preço, um valor. Essa precificação é o modo de troca que substitui o simples escambo, e a isso se dá tecnicamente o nome de capitalismo. Esta é uma das invenções mais importantes e úteis ao convívio social do ser humano, e permitiu a prosperidade que a humanidade goza hoje em dia. No entanto a burrice nata do homem o faz por analogia direta precificar não somente os bens e serviço mas o próprio semelhante. As pessoas passam a ter também um preço, que geralmente é a soma de bens que possui com a soma dos serviços que pode prestar em troca de dinheiro. Dessa forma o imbecil vê o mundo, colocando etiquetas de preço em pessoas. E o pior de tudo, colocam preço em si mesmo também, se frustando ou se vangloriando de ser barato ou caro. A força psicológica que este hábito possui é enorme. O sujeito pode até mesmo ter uma renda razoável e viver com relativo conforto, mas sua propensão instantânea e inconsciente de colocar preço em tudo o faz comparar o preço que ele dá a si mesmo com o preço que dá a outros e se sente muito mal por ser muito barato. Apesar de viver num mundo repleto de confortos, mesmo assim ele vive sôfrego e desiludido, pois se sente barato.
O materialismo na sua origem etimológica significa apenas que seu adepto crê na matéria e não em entidades invisíveis. Porém, com a corrente de pensamento chamada de materialismo histórico, esse significado mudou abruptamente. Agora o materialismo tem mais um significado, concomitante ao anterior, de precificação do ser humano. O materialista hoje não é mais aquele que crê apenas na matéria, mas sim aquele que crê que o ser humano tem um preço. As pessoas na verdade não tem um preço, nunca tiveram e essa afronta à inteligência, de que tudo pode ser precificado, até mesmo os processos históricos, causa uma confusão infernal nas mentes obtusas dos burros renitentes. Dar valor monetário a tudo é uma doença terrível que assola o homem moderno. E não é culpa do dito capitalismo, que nada mais é que um meio de troca. A burrice é a característica daquele que não entende o que vê e sua expressão máxima é a confusão de significados. A mais forte opressão que existe, que massacra, que solapa a expectativa de uma vida melhor, que rebaixa a mente humana, tornando o homem nada menos que um ser rastejante, pegajoso e nojento, vem da introjeção tácita de um valor monetário a si mesmo e aos outros.
A imbecilidade é tamanha que depois de colocar um preço a si mesmo, o estúpido ainda é capaz de dividir a sociedade humana em classes. É claro, baseado em preços, ele distingue aqueles que tem um preço de um lado daqueles que tem um preço maior de outro. E chama a isso de crítica. Existe maior aberração do que isto? Existe maior burrice do que generalizar e dividir o ser humano em classes? Me digam, existe maior burrice do que esta? E ainda vão mais longe, depois de dividir os homens pelo seu preço, em lotes, cada lote tendo lá sua forma própria de pensar e ver o mundo, cada lote tendo lá sua própria ideologia. E dessa forma tentam moldar sua visão obstrusa de mundo. E ainda chamam isso de educação e ensinam nas universidades. Eu pergunto de novo, existe algo mais repulsivo do que dividir seres humanos em classes??
Infelizmente essa doença intelectiva se espalhou abusivamente pelo mundo atual. Esta visão de mundo é a mais preponderante. Em todas as épocas alguma forma canhestra de pensar dominou as mentes. Metaforicamente, é como se o demônio reinasse sempre no mundo, de forma escondida, e quando é descoberto simplesmente muda de roupa e começa tudo de novo. Eu creio que esse demônio nada mais é do que a burrice. No fundo é um desafio que instiga o homem a aprimorar sua inteligência. Aqueles que, pelo burilamento da mente e do pensamento, conseguem se por ao largo dessas ideias funestas, conquistam a beleza e a felicidade, por mérito.
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