A aleatoriedade intrínseca da mente, que ora tende a uma direção ora à outra, repudia a sistematização das ações do corpo. Visto que os desejos mudam constantemente, é difícil manter uma disciplina pré-programada por livre e espontânea vontade. Por isso os homens gostam de ser governados. A coação física os mantém numa direção única. Assim descansam da árdua tarefa de regularem a si mesmos.
O hábito faz o monge. O desejo de liberdade talvez seja o mais vil dos desejos. Metade da realidade é subjetiva, existe apenas na interpretação de quem vê. Mas a outra metade é objetiva e não depende do sujeito. Desejo de liberdade é querer ultrapassar o limite da sua subjetividade. O mundo não é seu, o mundo não é de ninguém. A ansiedade de colocar sua íntima visão do mundo no mundo objetivo, como vontade de existir, ou vontade de potência, é um danoso engano. O sonho ou esperança de ser alguém no mundo é uma presunção autoritária. Esse imperativo tão comum na mente popular é um engodo. Tanto é que ninguém sente, mesmo conquistando tudo que almejava no mundo físico, que finalmente alcançou sua meta. Sempre surge uma nova meta. Realizar um sonho impossível, que é existir além de sua subjetividade, acarreta novos sonhos, porque nunca é plenamente realizado. Metade da sua vida não lhe pertence, pertence ao mundo. Não há nada que se possa fazer sobre isso. O reconhecimento desse fato te livra, enfim, do desejo de liberdade. E isso é tudo.
A ordem mental, portanto, é a única ordem a seu alcance. Não é fácil mas não é impossível. Se assim o fosse veríamos o sofrimento físico aumentando, e não é isso que ocorre. Por outro lado, a não ordem mental, a rejeição à disciplina mental, diminui sua existência. Já que o "eu" é um ser subjetivo, e este não existe no mundo objetivo, sua existência sendo puramente intelectual, só poderá existir de fato em si mesmo. E se recusar a se observar e atentar para a ordem interior deixarás de existir. O "eu" se tornará então um fantoche de ilusões e confusões do corpo e do mundo real.
Plenitude é derivação de plano. Sem esforço, plano. Sem altos e baixos, plano. Completo e infinito, independente, por fim, livre.
A ação no campo objetivo, através do corpo, visto que o corpo é a ferramenta da mente, necessita de combustível. A vontade surge no interior, no campo subjetivo. Ela é o combustível. A vontade é anterior à mente? Creio que não. A vontade é a mente. Pelo menos na sua expressão de força e de decisão. Vontades espúrias mente espúria. Vontade de sexo por exemplo é ausência intelectual. A mente não é absoluta nem contínua. Antes é sujeita à fragmentação e até mesmo à completa ausência de ordem, no caso da loucura. A vontade objetiva do corpo, com suas urgências físicas, não pode ser controlada pela mente, pelo simples fato do "eu" ser agente apenas da metade de sua existência. Um campo mental que age é uma mente organizada. Quando digo organizado é direcionado. Também é infantil achar que seu "eu" tem completo domínio do pensar. O próprio pensar é uma ação mental que depende de aprendizagem, e portanto, foi adquirida por alguma tradição de pensar. No entanto, a finalidade, o alvo mental é escolhido ou aceito, e pode ser a criação ou destruição. A vontade de permanecer é criação, de desaparecer destruição. Criação é ordem, paz, plenitude. A mente originária do campo objetivo, nascida de um corpo, é criativa. O decaimento ocorre por confusão, quando o subjetivo se transveste de objetivo. Objetivo é tudo aquilo que é agora. O campo objetivo desconhece outro tempo a não ser o tempo presente. A mente por sua vez, pode afastar-se do tempo presente. Nesse afastamento mergulha em si mesmo, e pode perder o contato com o campo objetivo, dando-lhe menos importância do que de fato tem, e assim confundindo-se até o ponto de sugar as forças físicas necessárias à atuação simples do corpo no objetivo. O sofrimento mental vem de um longo afastamento da mente do tempo presente. Por fim o sofrimento mental pode, sendo metade da realidade pessoal, transmitido ao sofrimento físico, em dor. O que poderia ser chamado de doença, depressão ou alienação.
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