Reza o bom senso não fazermos acepção de pessoas. Tratar todos com igual respeito e consideração. É claro que tais conselhos servem apenas dentro de restritos círculos pessoais, visto que a experiência de vida nos mostra que é justamente o contrário que devemos fazer. Somente um estulto trata todas as pessoas da mesma forma. Além das diferenças pessoais imensas, das díspares visões de mundo e dos interesses individuais e coletivos, em todos os grupos formam-se, mais cedo ou mais tarde, teias de relacionamentos os mais variados que torna impossível considerarmos qualquer outro um outro qualquer. A cada um damo-lhes uma marca de maior ou menor grau de periculosidade, maior ou menor amizade e assim por diante. Nem sempre o problema é a inimizade. Você pode até não ter nenhum inimigo, mas sempre terá quem o despreza. E você quer maior golpe contra a sua dignidade e sua individualidade do que o simples desprezo. O desprezo só pode ser combatido eficientemente com mútuo desprezo. A mais seca relação formal, num emprego por exemplo, é o mais alto grau de defesa e de ataque, por consequência. Por isso vemos em ambientes muito disputados, por dinheiro ou poder, a frieza constante e o cuidado seco na comunicação. Dar mais atenção do que o mínimo a um colega, neste tipo de ambiente, é dar-lhe condições de agir, e isso pode ser fatal. Portanto, numa espécie de seleção natural, sobrevivem somente os mais frios e calculistas. O contrário também é patente. Em ambientes onde não há disputa, porque não há o que repartir, as relações são efusivas, emotivas e abertas. Os peões costumam se tratar com atenção, galhardia e companheirismo. A alta corte com polidez.
O sofrimento interior vem em lufadas intermitentes. Escolho ações para, na sua execução, o sofrimento amenizar sua fúria. Percebo que muitas vezes o sofrimento está ligado ao passado ou ao futuro. O jeito então é me recolher no presente.
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