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Comer carne

    Isso é um diário. Não é outra coisa. É um diário. Hoje vim na Van, do serviço pra casa, pensando. É o que geralmente eu faço. A viatura leva 40 minutos de lá para cá. E hoje particularmente estava lotada e barulhenta. O pessoal, a peãozada estava agitada porque a viatura era uma perua antiga, estava lotada, todo mundo apertado. Eu vim na frente com a cantineira de um lado e o motorista resvalando minha perna toda hora que passava a marcha. Não tinha como pular pra cima da véia, então o jeito foi ficar encolhido. Naquela barulheira eu vinha resolvendo um dilema. Qual a melhor abordagem para a questão se é ético ou não comer carne. 
   Metade da viagem é feita em estrada de terra, e passamos todo dia em frente a algumas fazendas. Muitas vezes o gado está pastando, muitas cabeças, muitos bezerros e bois enormes com aquele cupinzão nas costas. Se existe um animal mais pacato e, em condições normais, dócil, do que uma vaca, não sei qual é. Talvez seja por isso que a questão surgiu. O pensar sobre qualquer assunto, profundamente, dentro de uma viatura lotada de peão é um desafio digno de nota. Você tem que interromper a linha de pensamento a qualquer tempo pra responder a alguma brincadeira ou coisa do tipo, sem errar ou dar bandeira, pra não ser tido como voador. Então estou sempre ligado na bagunça do pessoal com uma outra parte concentrado no desenvolvimento do argumento. Com o tempo pega-se o jeito.
   Eu não terminei o argumento todo, mas ele começa por Descartes, que esgota-se rapidamente por não encontrar uma solução plausível; meneia por Kant para colocá-la sob um foco fenomênico, o que resolve parcialmente, e finda numa aporia sobre graus diferentes de necessidade e prioridade.
   Descartes é famoso por ter criado o dualismo conceitual corpo e alma. Hoje em dia podemos dizer corpo e mente, no tempo de Descartes o pessoal nem tinham certeza de onde vinham os pensamentos, ele chamava de alma. A santa igreja ainda era muito forte e Deus, alma e espírito eram termos muito usados tanto na escolástica quanto pelos grandes pensadores. Descartes dividiu filosoficamente o homem em mente e corpo. E daí decorreram séculos de discussões filosóficas sobre como a mente (alma) comandava o corpo, já que a mente era incorpórea e o corpo material. De fato, em nossa questão, se o homem come carne para alimentar-se, quem a come é o corpo, a mente raramente analisa o que está fazendo o corpo naquele momento.A verdade é que é uma realidade dramática. Comer carne não só denota uma crueldade que destoa das boas intenções mentais humanistas como rebaixa-o a um simples animal voraz. No entanto, além de não ligar para o fato, se dissermos algo assim para uma platéia, por exemplo, igual a da viatura em que me encontrava, vão fazer o mínimo caso ou debochar pura e simplesmente. Em geral as pessoas não querem saber disso, mesmo os devotos cristãos que se dizem imagem e semelhança de Deus. Bom, essa atitude mental conformista, aparentemente é fruto de uma dualidade onde o corpo faz o que lhe apetece enquanto a mente vive noutro mundo, lunático, fora da realidade. Ou seja, eu penso, eu existo, mas este que existe, existe fora da realidade. E não tem compromisso com a realidade, pois na realidade o corpo fica fora, pelo menos em alguns pontos, da responsabilidade da mente. Usando esta abordagem, como disse antes, não vejo saída e tudo me parece meio estranho e sem sentido.
  Dois séculos depois temos outra abordagem interessante para este problema sob os auspícios de Kant. Para Kant, o objeto em si é inescrutável. O homem capta a realidade através de seus sentidos e portanto não os percebe diretamente, mas de forma mediata. Da coisa em si ele conhece apenas aquilo que seu próprio corpo lhe informa, e não da coisa em si mesma. Isso é um fato comprovado pela ciência. É só usar um microscópio e veremos um mundo completamente diferente das nossas possibilidades limitadas da visão. O que achamos que conhecemos, pelos sentidos, é na verdade uma interpretação do que é realmente, ou seja, é um fenômeno. Só conhecemos o fenômeno das coisas. Mais do que isso, a realidade não é possível de ser interpretada se já não nascermos com um aparato mental, uma estrutura mental, que contenha antes de tudo o tempo e o espaço. Sem os quais não poderíamos conhecer uma causa e uma consequência, no tempo, e distinguir um objeto de outro, no espaço. Portanto, de posse destes dois argumentos, podemos abrir um pouco o espectro de nossa compreensão sobre o fato real, mas não completamente conhecido, do ato de comer carne. Eu sei que neste ínterim existe um salto, um pulo quântico, entre a abordagem Kantiana da realidade e nossa questão. Mas, sinceramente, não estou afim de detalhar mais do que isso nestas linhas desse diário. Espero que o leitor entenda a ligação, de pronto e imediato, que faço, se não pela completa compreensão, por pura aceitação em nome da continuidade e confiança - estou com sono e ainda falta muito para resumir o que vim pensando na estrada. A crueldade aparente do fenômeno em se comer carne é resultado de uma categoria de pensamento que poderíamos chamar de "compaixão". Kant define doze categorias de pensamentos primários. Engraçado é que uma pesquisa recente, feita com vários voluntários, demonstrou que nosso cérebro está dividido em exatos doze campos para qualquer palavra que se ouve. Isso é outra história. Não interessa muito a quantidade - porventura a própria quantidade é uma das categorias - de categorias mentais do pensamento. O que importa é que qualquer tipo de pensamento faz parte de um tipo de grupo que possui algum sentimento ou sensação em comum. Sentir pena, ou nojo, de um animal por ele servir de alimento para o homem é uma confusão entre categorias distintas de pensamentos. A carne não é o animal e a compaixão em não matar não diz respeito aos animais não humanos. Matar animais diz respeito à ordem de sobrevivência e prioridades. Se alguém se recusa a matar animais isso não quer dizer nada e não implica em nada àquele que continua matando. Por que então é diferente matar um humano? É diferente porque a categoria para se compreender a si mesmo como ser humano distancia-o daqueles que não são humanos de forma a nenhum dos dois compreender o outro como compreende a si mesmo. Essa consideração, se observada profundamente, quer dizer que sentir compaixão por animais é o mesmo que sentir compaixão por uma pedra. 
   Foi mais ou menos assim que vim pensando hoje. Será que um dia eu consigo explicar o que penso? Bom, não tenho nenhuma obrigação pra isso. E isso já é um começo.

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