Quem é filósofo?
Esta pergunta surgiu numa aula de graduação em filosofia. A discussão que se seguiu não me satisfez. É uma pergunta pertinente. Aos desavisados pode remeter a outra pergunta: o que é filosofia? Nesse caso recairia no problema de definir de antemão justamente o processo que se almeja alcançar - não quer dizer que filosofia seja um processo. Visto que por este lado não há saída para a questão de quem é filósofo. Atualmente tenho visto explicações puramente contemporâneas, arraigadas da padronização metódica da ciência. Eles dizem que, dentre outras coisas, o filósofo é aquele que propõe um objeto de estudo bem definido. Ou seja, filósofo é aquele que apresentou um novo objeto de estudo no campo da filosofia. Mas esse tipo de argumentação sobre o filósofo não cai muito bem. Lembremo-nos de que a filosofia é a mãe e o pai de todas as estruturas metódicas, tanto da ciência quanto das pseudociências. E é muito mais do que isso. A filosofia tem por direito a liberdade absoluta de pensamento. Dessa liberdade nascem aquilo que mais tarde tornam-se especialidades. Portanto não cabe definir o filósofo como apresentador de um novo objeto de estudo, porque a filosofia não trata apenas de objetos e sim de classes de objetos, ou de classes de classes de objetos, ou de classes de classes.... ad infinitum...
Filósofo então seria quem forma-se em filosofia? Muito menos, é claro. Nesse ínterim é bom ressaltar que a ridícula forma reducionista atual de dizer que - por compaixão fingida ou verdadeira - todo mundo pode ser o que quiser, basta se esforçar, sonhar, etc... e que temos que respeitar aquilo que a pessoa acha que é; bom, essa moda dantesca em afirmar-se que lixo pode ser ouro, não terá guarida na consciência de nenhuma pessoa honesta, seja hoje, ontem, amanhã ou sempre. Filósofo não é quem quer ser. Podem ressuscitar Sartre e seu existencialismo barato, levantar bandeiras e bater pezinho. Uma pessoa não é o que pensa ser. Quanto menos o querer ser é o que quer ser.
Apesar da inicial dificuldade em responder quem é filósofo, a resposta parece-me razoavelmente simples. A filosofia como um todo, dentro de uma interpretação possível e limitada pela linguagem, pode ser considerada uma qualidade que atende e emerge em algumas pessoas devido a circunstâncias tais impossíveis de numerar. Em resumo, podemos vê-la como ente de qualidade e utilizar essa visão para encontrarmos suas características próprias que a podem definir. Admito que ainda não relacionei todas, de fato encontrei apenas duas características que pra mim, por meio da negação, impede que a personalidade criadora de um pensamento original ou particular seja dito um filósofo. São elas: atemporalidade e independência.
Só podemos considerar que uma pessoa é um filósofo se ele apresentar um conjunto de pensamentos relacionados, ou uma teoria, que seja atemporal e independente. Vamos supor que queiramos verificar, segundo estas características, se Kant é um filósofo realmente. Podemos rapidamente perceber que ele é um forte candidato, pois sua filosofia não depende do tempo em que fora publicada e é completamente independente. Kant estudou vários outros filósofos e utilizou-se desses conhecimentos, mas não depende deles. Sua crítica é compreensível e independente mesmo que você nunca tenha lido Hume, Leibniz, Spinoza ou Aristóteles. Portanto podemos chamá-lo de filósofo. Um contra-exemplo seria Maquiavel. Qualquer um que tenha conseguido ler "O Príncipe" sabe que sua dita filosofia é completamente temporal. Depende do conhecimento de inúmeras circunstâncias da época em que viveu. Seu trabalho é quase incompreensível sem o estudo paralelo do contexto de sua vida e das personalidades de sua época. Se retiramos o contexto, a filosofia de Maquiavel se transforma numa pueril abstração que possivelmente nem é de sua autoria: o fim justificam os meios. Karl Marx é outro exemplo que não passa em nosso escrutínio. Convido qualquer um a ler sua obra principal "O Capital". Não se entende quase nada se não estudarmos antes a sociedade a qual ele estava inserido. Acredito que munido de apenas duas dessas características da filosofia já é possível discernir dentre uma ampla de gama de escritores aqueles que definitivamente não são filósofos. Existem outras características, conforme disse, que poderiam complementar esse discernimento.
Uma última consideração, que não merece maiores apelos porque já foi suficientemente provada, é que não existe filosofia oriental. A sabedoria oriental não é filosofia. Filosofia é criação grega e moldou a sociedade ocidental.
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