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O erro e a guerra cultural

   Desde o uso do termo "noumenos" por Kant, inspirado nas mônadas de Leibniz, e que resultou na "vontade de existir" de Schopenhauer, e mais tarde anunciado a marteladas como "vontade de potência" por Nietzsche, ou mesmo antes, muito antes com Platão na sua teoria da "anamnésia", o que estes termos podem simbolizar hoje, nas expressões ideológicas de um populismo arrogante, poderia ser chamado de "livre expressão das ideias". Já que o ser em si mesmo é independente e possui legalmente, nos cânones de uma pretensa legislação mundial, forçosamente o direito a um livre arbítrio, consoante Rousseau que quer obrigar o ser a ser livre, deve-se então dar, por consequência, a este mesmo ser, no mesmo grau, o direito de errar. Se você tem o direito inalienável de se expressar conforme bem queira, tem também o direito, da mesma forma, de errar. O erro não é só permitido como desculpável, em qualquer nível. O fato é que essa política, imposta à força, de liberdade irrestrita à expressão, alimenta um estado de abominação cultural, uma cultura antropofágica que se alimenta de seus erros e não de seus acertos, já que errar é mais fácil do que acertar. O correto e justo se perde num amontoado de ideias desconexas que alienam no sentido de concentrar em torno do mais obsceno, ao invés de mirar o que é belo. A sociedade vai assim se degenerando num espetáculo de sandices. 
   Não era disso que eu gostaria de falar. Queria só pontuar que o erro é importante. A liberdade de errar é crucial para a criatividade. Não há criatividade sem erros. O perfeito não nasce pronto, necessita de erros. Mas o erro só é perdoável quando tem o objetivo de burilamento do que é certo. É necessário fazer uma escolha: ou você coopera na direção do que é belo e moral ou você coopera na direção do que é feio e imoral. É claro que o belo e moral possui significados razoavelmente diferentes numa cultura e noutra. Para sair desse relativismo moral a única forma intelectualmente coerente seria utilizar-se da lógica. Poderia ser a lógica do absurdo, por exemplo. Você acha a morte bonita? Você quer seus amados mortos? Ou melhor, você ama alguma coisa? O amor é importante para você? Da resposta de algumas destas perguntas, logicamente e espontaneamente surgem princípios morais. No caso extremo de alguém que obstinadamente se recuse a responder para si mesmo alguma destas perguntas, por considerá-las jogo de palavras ou de pensamentos, mesmo assim se descobrirá uma moral, ou seja, um princípio. Destes princípios que emergem destas questões é que o relativismo moral se finda. O relativismo então desintegra-se perante a certeza. E o erro então passa a ter limites e direção.
   A tolice sempre foi a regra geral no mundo. Disso eu não tenho a menor dúvida. Entretanto, quando os mais eminentes propagam-na como se a própria tolice fosse o sumo bem, então nasce um motivo para a guerra cultural. Por esta boa causa é permitido errar na direção do acerto. 
   
 

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