Um grande silêncio, um interregno, após a agitação dos afazeres na falsa correria dos compromissos assumidos. Uma tomada de fôlego e um olhar prescrutante ao céu. De novo a consciência desperta de seu sono mundano e ressurge a realidade, como antes, mas com brilho e cheiro de coisa nova. Assim a ordem dos pensamentos se reajusta para competir com a injustiça dos desacordos firmados num caminho deixado, sempre tortuoso, de pedras e cacos. A dureza dos argumentos, enrijecidos pela tufânica ventania da contradição, àqueles que não caíram, e por estes tempos poucos ou nenhum caíram, se afila e toma a forma adunca que nunca antes tiveram. Resta caçar o inimigo, esse que luta em vão, apenas por pão, a pô-lo numa estaca sobre o estalar do fogo e devorá-lo sem fome, só por obrigação. A caça enche a planície, a floresta e mesmo o deserto. Os grandes erros já se petrificarem em enormes monumentos do passado, criam limbo, e já não fazem a menor diferença. Mas os pequenos erros, estes estão vivos por toda a parte. Estão vivos como lebres.
Outro dia entendi o significado de amadurecimento. Creio não poder tê-lo entendido anteriormente por pura força de ordem cronológica da vida. Dizem que um moço pode ser tão ou mais maduro que um velho. Acho que não, pelo menos não o tipo de amadurecimento que me reporto. A maturidade tem idade certa pra ocorrer. Não vem antes dos quarenta, senão através de brumas no horizonte. Em torno dos quarenta a vida termina, acaba. Restando apenas a confusão de uma festa a arrumar. Os enganos continuam, mas só da boca pra fora, cada um já sabe o que é, o que foi, o que ainda pode ser e o que nunca será.
Aquele que é rei sabe do que estou falando. A este lhe foi dada a vitória e aonde estiver, seja embaixo ou em cima, sabe que não tem algozes, apenas súditos. Não faz nada por isso. Não grita, não bate, não ameaça, nem nada. Não precisa. Os mais novos e os corruptos lhe prestam solenidade sem mesmo se darem conta disso. É rei das certezas, não erra mais, não pisa em falso, não dá mais a cara a tapa pois o inimigo já foi posto de joelhos e não consegue lhe erguer a mão. A maturidade é um reino de sabedoria. Conquistado em batalhas sangrentas, onde a vida foi posta a risco para salvaguarda da honra. O rei é aquele que errou, que teve coragem de errar pra ter certeza do erro. Aquele que não se deixou enganar nem se vendeu, mas que entregou seu tesouro, sua vida, ao inimigo. E o inimigo a mastigou e cuspiu porque lhe era intragável. Então o rei ainda vivo, porque o inimigo não conseguiu lhe engolir, diz ao inimigo: agora é a minha vez!
Vencer no início é fácil quando se utiliza de subterfúgios e maledicências. Mas o tempo passa. E o que importa e vencer por último. Passada a prova de fogo da juventude, o incorrupto é aquele do provérbio - os últimos serão primeiros, e os primeiros últimos.
A maturidade é isso, o medo acaba, tudo termina. Os fracos hão de chorar e dizer que não, que a vida está apenas começando. Bom, deve ser isso mesmo pra eles, que não fizeram o certo é tem que começar tudo de novo. Por mim já acabou.
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