Dar uma opinião num fórum digital ou num grupo de colegas, diante dum assunto qualquer, é uma atitude paradoxal. Por um lado o espaço geralmente é exíguo demais para qualquer tipo de preparação argumentativa, por mais sintética que seja a exposição; por outro, se a conclusão é adiantada, por razões de economia, ela causará espanto devido à lacuna dos argumentos. O resultado é evidente, só há espaço para concordar com a premissa apresentada, para assim poder continuar o diálogo. Do contrário, se refutar a premissa, devido ao apertume da situação, o argumento apresentar-se-á indigesto e sem sentido. Normalmente, em qualquer meio onde está sendo discutida uma ideia que necessita de preparação mais longa para ser discutida, se o meio não permite essa delonga, a ideia será partida em simples dois lados antagônicos. E o paradoxo circular - quanto mais explicação menos consenso - atuará indefinidamente; ou até que um dos debatedores cansado de rodopiar em círculos, desça o degrau da prudência vocabular.
Entrementes esta dificuldade, os fóruns permanecem abarrotados e expor o que se pensa ainda é o esporte preferido de quem não tem mais o que fazer. Por quê? A linguagem tem algo de misteriosamente atrativo. Qual seria a razão por trás do infindável prazer do falatório? De certo as razões são muitas e de variados matizes. Mas vamos resumir e ir direto à questão que resolvida dissolveria o impasse: Qual a função do diálogo?
Sem querer ser pragmático com aquilo que é prazeroso por si mesmo, deve haver um sentido mais profundo no dialogo, do que simplesmente o gozo momentâneo. O próprio prazer sexual possui um sentido anterior que sustenta sua existência, que é a continuidade de sua própria existência através da continuidade do corpo que lhe dá emergência, na possibilidade da fecundação. É indiferente que o agente do coito não se aperceba disso, a espécie animal da qual ele faz parte lhe outorga o direito ao prazer na paga eventual por sua descendência. Não podemos deixar de notar que existe aqui uma dicotomia, que é diferente de um paradoxo, por não ser circular e sim diametralmente oposto. A dicotomia se sustenta na dualidade prazer-sofrimento... Mas sem entrar em maiores detalhes nessa dualidade, voltemos ao diálogo, que é nosso foco. O diálogo também possui um par dual, num nível mais abstrato, que é o monólogo. Se dialogar é particularmente prazeroso, e o prazer como vimos, em sua substância primitiva, no corpo, é o gozo, então se se admiti que existe uma relação, mesmo que tênue, entre o sentido do prazer carnal com o sentido mais essencial do diálogo, e que esse sentido está ancorado numa premissa ainda mais forte - que na espécie seria a sobrevivência através da descendência - então podemos sugerir, por hipótese, sem ser demasiado ousado, que o diálogo também possui uma premissa mais forte, no caso, a sobrevivência, na espécie também, da ideia.
Comentários
Postar um comentário