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As filosofias morrem

   Um filósofo não é aquele que apaixonadamente se dedica à filosofia, e sim aquele que não tendo mais o que fazer, mas possuindo a habilidade necessária, recorre à filosofia para passar o tempo. Ora, depois de estar adestrado o suficiente a ponto de despertar o interesse de outros, que também não tem mais o que fazer, torna-se por fim um consagrado filósofo. Filosofia portanto não é algo que se ensina, pois ninguém consegue de per si não ter o que fazer, que é no fundo uma situação do destino individual e intransferível. Poderíamos supor que o não ter o que fazer subjaz a uma condição financeira ou outra qualquer, mas não é verdade. Muitas vezes quem mais dinheiro tem são os mais cheios do que fazer. Não ter o que fazer está ligado a um desprendimento do lugar comum. Uma inalterada forma de desprezar as urgências presentes conforme descobre-as como falsas urgências. Nem todos são aptos a perceber a inutilidade de todo esforço. 
   Filosofia, em essência, é uma expressão de auto-afirmação num âmbito metafísico. E como tal, se competente o suficiente, precisa materializar-se. Expressão pode ser entendida, neste contexto, também como expansão. Nasce no íntimo do ser, fruto de nada fazer - da ociosidade gostosa - que aproveita o tempo para tatear uma nova perspectiva. O nada é a força motriz, o nada fazer e nada querer. Assim repetindo um micro-movimento dentro do macro-universo, que também expandiu-se de um nada que ninguém sabe de onde veio. 
   Existem tantas filosofias quantos seres humanos. Poder-se-ia dizer sem erro que cada pessoa é uma filosofia ambulante. Da mesma forma que os seres humanos, algumas filosofias possuem maior utilidade, maior amplitude, eficiência etc... outras podem ser até mesmo ridículas ou incompreensíveis. Mas todas, sem exceção, são expansões de um indivíduo em particular. E da mesma forma que uma semente absorve vários nutrientes à sua disposição para crescer e mostrar-se no mundo, não é errado alimentar-se das filosofias alheias para expandir-se a sua. E claro também é que uma pessoa enclausurada, sem contato com ninguém, também pode exercer um papel de filósofo, e no final das contas ninguém estará apto a dizer de antemão se o produto será de melhor ou pior qualidade.
   Algumas filosofias são tirânicas, assim como o são os homens. Alguns pensamentos teimam em tomar para si a realidade em todas as suas dimensões. Algumas até conseguem levar adiante seu intento por anos ou séculos a fio. Mas um dia outro filósofo poderá, na grandeza de sua ociosidade, apontar, dizer, demonstrar e convencer de que é tudo lixo, voltemos à estaca zero. O poderio de uma interpretação do mundo quando atinge sua máxima expansão, é necessário que morra, como tudo o mais, e volte a servir apenas de adubo para o novo. As filosofias morrem.
    

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