Nos tempos que andava pelas estradas da vida, naquela pequena cidade de Pirinópolis - cidadezinha sem muita importância - onde teci coragem de residir por uns tempos, lá tive a oportunidade de viver mil liberdades que só agora consigo ver sua importância. Naquela pacata cidadezinha acabei por me enturmar com artesãos de toda sorte, tinha o Maneco que criava mini castelos de pedra viva, Marcílio que fez bustos de governadores em bronze só pra ajuntar dinheiro e ir pra europa fazer-se de estátua viva. Tinha outro que esqueci o nome que me mostrou, na casa de quem a comprou, a mais linda escultura em madeira que já vi - de Krishna num barco de pesca. Tinha outro com o qual fui até pra Goiânia com ele, pra ajudá-lo nos seus magos de durepoxi - mas o que ele fazia de melhor eram as mandalas de arame, que não me mostrou como fazer. Tinha o aposentado do trailler, que viajava com a mulher, e fazia uma mandala também, mas de papel grosso - que também não quis me ensinar a fazer. Tinha o dono da chácara com a casa toda feita com madeira esculpida, coisa mais impressionante, cada coluna da casa era uma escultura. Tinha também o artesão de estórias que nas rodas de basé contava seus contatos com extra-terrestres - ele trabalhava e morava no manicômio. Foi nesse tempo que achei um par de sandálias debaixo de um pé de Jatobá, depois de ter passado mais de mês andando descalço pelas estreitas vias de pedra lascada, fazendo do meu pé um casco duro de bolha estourada. Foi lá que ocorreu de turistas tirarem foto minha enquanto eu meditava debaixo de frondosa árvore. Foi lá também que, voltando de Goiânia, trouxe uma namorada que acampou comigo à beira do rio e passeamos o dia inteiro. Mas o que lembrei mesmo foi de Pedro, um escultor de móveis de madeira. Móveis rudes igual ele. E lembrei quando me disse que o artesão verdadeiro demora até encontrar seu material de trabalho. Disse que encontrou-se com seu material de trabalho, a madeira para móveis, só quando já estava bem de idade. E que quando encontrou a madeira, o seu material de artesão, foi que tudo começou a dar certo na sua vida. Então eu fico cá pensando que dia vou encontrar o meu material. Já fiz de tudo, até madeira já esculpi uma vez. Lembro que ele também disse que o material, quando você o encontra, é igual paixão de namorada, é tiro e queda. Então eu acho que encontrei meu material, pois a paixão cresce a cada dia, só falta tudo dar certo.
O sofrimento interior vem em lufadas intermitentes. Escolho ações para, na sua execução, o sofrimento amenizar sua fúria. Percebo que muitas vezes o sofrimento está ligado ao passado ou ao futuro. O jeito então é me recolher no presente.
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